CÂNTICO NEGRO
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Ouça
aqui a leitura do
CÂNTICO NEGRO,
por declamador não identificado.
S. Rezende ::: 00:00 :::
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:::....Setembro 16, 2003....:::
Carlos Gomes
(11/07/1836-16/09/1896)
"É sempre assim, o que nada me custou, o que escrevi apenas num momento de bom humor [a ópera Salvator Rosa], causa todo este barulho, ao passo que a Fosca, que é um trabalho sério, consciencioso e cheio de valor, foi recebida friamente."
"Foi a minha salvação o Guarani. Sem ele eu estaria hoje, quando muito, professor de piano e música."
"Julgam que se acabou a fonte de onde brotou o Guarani, mas enganam-se inteiramente; o Gomes há de trabalhar, há de produzir, há de mostrar a essa gentalha que não é um compositor de ópera bufa (como um jornalista, meu inimigo, disse há dias!)."
"De modo que vivo sempre descontente, incerto e sujeito a que se diga no Brasil que eu sou amigo do repouso! Mas diga-me, meu bom amigo [Visconde de Taunay], do que serve acusar-me tanto no Brasil, ao mesmo tempo que desprezaram as minhas óperas Salvador Rosa e Fosca?"
"O público da ópera pede gritarias, ciúmes, traições, mortes e mais mortes."
"Não tenho mais nada que aprender dos mestres, o meu juiz é o público."
Ouça trechos de:
O Guarani: abertura
Orquestra Sinfônica Brasileira - Regente: Yeruham Scharovsky
O Guarani: Sento una forza indomita
(Libreto: Antonio Scalvini), com Giacomo Lauri-Volpi e Margherita Benetti
O Escravo: prelúdio
Orquestra Sinfônica Brasileira - Regente: Yeruham Scharovsky
Quem sabe
(Carlos Gomes-Bittencourt Sampaio), com Francisco Petrônio (voz) e Dilermando Reis (violão)
Músicas digitalizadas de Carlos Gomes aqui
S. Rezende ::: 00:00 :::
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